Perdida no tempo de seu quarto escuro na noite, girava na cama à procura de alguma posição confortável para conseguir descansar sua cabeça. Encarava o teto calmamente enquanto sem perceber, agitava os pés com meias, mostrando uma tal ansiedade. Ansiedade sem cabimento, não havia nada novo na manhã seguinte pelo qual tivesse que se exasperar. Fechava os olhos e os abria novamente. Sua cabeça pendeu até perceber estar de ponta cabeça, os pés encostados na parede de travessado com a cama. O sangue subia e tudo parecia um tanto encantador daquela forma irregular de se ver. Seu livro já havia terminado, lera com tamanha lentidão apenas para que não acabasse sua fantasia tão rápido, mas sabia que uma hora teria que terminar, assim como tudo em sua vida. Lamentava por ter lido todos os livros em seu quarto, todos os poucos que guardava com tamanho carinho. Não os ganhava com frequência, apenas quando seu irmão voltava da grande cidade, o "médico" da família. Que graça tem encontrar com corpos rasgados, úlceras abertas e mortes e mais mortes todos os dias? Mas de qualquer forma, seria muito melhor do que estar ao léu como ela. Viver ao léu. Essa mesmice a cansava, e tão jovem já carregava tamanho peso de um ancião. Queria fazer algo, não apenas crescer, casar-se e ter filhos. Viver para a família e o lar. Costurar, fazer compras e pegar o bonde para todos os mesmos lugares. Não queria isso para ela mesma. Pensava em sua mãe, seu cabelo extremamente arrumado e perfeito, nenhum fio saía do lugar. Seu avental florido sobre o vestido simples e elegante, o pequeno relógio no punho. As costas retas, o sorriso fácil e simpático para seus convidados. Passava, limpava, cuidara dos filhos que tivera cedo. Já estava grávida aos dezesseis anos, sua idade no momento. Isso a assustava um pouco. Apesar de toda a felicidade aparente - ou talvez apenas contentamento, de sua mãe, ela não queria isso, queria mudar alguém, mudar alguns, mudar o mundo quem sabe. Lembrou-se então de seu pai, um médico sério, com vários clientes e muito bem respeitado. Salvara vidas constantemente. Talvez ele mudasse um pouco o mundo, ao menos o mundo daquelas pessoas. Suas meias chacoalhavam com seus pés para cima, apoiados na parede. Os cobertores jogados de lado, o travesseiro caído no chão, seus cabelos pendendo para fora da cama. A dor de cabeça começara a surgir, ficava mais fácil de pensar, mais difícil de respirar. Seu irmão, influenciado por seu pai, talvez um "boi de manobra"? Ou apenas um jovem sem ideias próprias? E então lhe restava sua tia. Mulher jovem, com a mesma idade de seu irmão, vinte anos, mas madura como um mamão laranja, e azeda como uma limonada sem açúcar. Misturava todos os gostos e gestos em si. Era calma como uma tarde ensolarada, mas tempestuosa quando seu mau-humor falava mais alto. De cabelos negros e curtos sobre os ombros brancos, os balançava sem preocupar-se com a bagunça. Usava calças enquanto todos a julgavam sendo melhor comportar-se como uma dama e não um rapaz. Estalava seu chicle quando era de sua vontade irritar. Tantos exemplos que havia em sua volta. Certos ou errados? E se certos, certos para quem? A luz acendeu-se. Levantou a cabeça rapidamente sentindo uma tontura atingi-la. "Vá dormir." Foram as duas palavras ditas por seu pai que voltara a apagar a luz. Pegou o travesseiro, puxou os cobertores, os jogou por cima da cabeça e mais escuridão se fez. Fechou os olhos. Fixou-se na cor preta, a única que via, e a única que poderia fazê-la esquecer de tantos pensamentos conturbados sobre quem ser ou como ser quando crescer. Sabia que poderia esquecer nesse momento esses sentimentos, mas amanhã, na hora de dormir, eles voltariam novamente e provavelmente teria que encontrar outra solução para empurrá-los para o próximo dia. Negociar com sua mente, talvez desse certo. Penso em você amanhã.terça-feira, 27 de outubro de 2015
Décima-3 Página: Negociar com a mente
Perdida no tempo de seu quarto escuro na noite, girava na cama à procura de alguma posição confortável para conseguir descansar sua cabeça. Encarava o teto calmamente enquanto sem perceber, agitava os pés com meias, mostrando uma tal ansiedade. Ansiedade sem cabimento, não havia nada novo na manhã seguinte pelo qual tivesse que se exasperar. Fechava os olhos e os abria novamente. Sua cabeça pendeu até perceber estar de ponta cabeça, os pés encostados na parede de travessado com a cama. O sangue subia e tudo parecia um tanto encantador daquela forma irregular de se ver. Seu livro já havia terminado, lera com tamanha lentidão apenas para que não acabasse sua fantasia tão rápido, mas sabia que uma hora teria que terminar, assim como tudo em sua vida. Lamentava por ter lido todos os livros em seu quarto, todos os poucos que guardava com tamanho carinho. Não os ganhava com frequência, apenas quando seu irmão voltava da grande cidade, o "médico" da família. Que graça tem encontrar com corpos rasgados, úlceras abertas e mortes e mais mortes todos os dias? Mas de qualquer forma, seria muito melhor do que estar ao léu como ela. Viver ao léu. Essa mesmice a cansava, e tão jovem já carregava tamanho peso de um ancião. Queria fazer algo, não apenas crescer, casar-se e ter filhos. Viver para a família e o lar. Costurar, fazer compras e pegar o bonde para todos os mesmos lugares. Não queria isso para ela mesma. Pensava em sua mãe, seu cabelo extremamente arrumado e perfeito, nenhum fio saía do lugar. Seu avental florido sobre o vestido simples e elegante, o pequeno relógio no punho. As costas retas, o sorriso fácil e simpático para seus convidados. Passava, limpava, cuidara dos filhos que tivera cedo. Já estava grávida aos dezesseis anos, sua idade no momento. Isso a assustava um pouco. Apesar de toda a felicidade aparente - ou talvez apenas contentamento, de sua mãe, ela não queria isso, queria mudar alguém, mudar alguns, mudar o mundo quem sabe. Lembrou-se então de seu pai, um médico sério, com vários clientes e muito bem respeitado. Salvara vidas constantemente. Talvez ele mudasse um pouco o mundo, ao menos o mundo daquelas pessoas. Suas meias chacoalhavam com seus pés para cima, apoiados na parede. Os cobertores jogados de lado, o travesseiro caído no chão, seus cabelos pendendo para fora da cama. A dor de cabeça começara a surgir, ficava mais fácil de pensar, mais difícil de respirar. Seu irmão, influenciado por seu pai, talvez um "boi de manobra"? Ou apenas um jovem sem ideias próprias? E então lhe restava sua tia. Mulher jovem, com a mesma idade de seu irmão, vinte anos, mas madura como um mamão laranja, e azeda como uma limonada sem açúcar. Misturava todos os gostos e gestos em si. Era calma como uma tarde ensolarada, mas tempestuosa quando seu mau-humor falava mais alto. De cabelos negros e curtos sobre os ombros brancos, os balançava sem preocupar-se com a bagunça. Usava calças enquanto todos a julgavam sendo melhor comportar-se como uma dama e não um rapaz. Estalava seu chicle quando era de sua vontade irritar. Tantos exemplos que havia em sua volta. Certos ou errados? E se certos, certos para quem? A luz acendeu-se. Levantou a cabeça rapidamente sentindo uma tontura atingi-la. "Vá dormir." Foram as duas palavras ditas por seu pai que voltara a apagar a luz. Pegou o travesseiro, puxou os cobertores, os jogou por cima da cabeça e mais escuridão se fez. Fechou os olhos. Fixou-se na cor preta, a única que via, e a única que poderia fazê-la esquecer de tantos pensamentos conturbados sobre quem ser ou como ser quando crescer. Sabia que poderia esquecer nesse momento esses sentimentos, mas amanhã, na hora de dormir, eles voltariam novamente e provavelmente teria que encontrar outra solução para empurrá-los para o próximo dia. Negociar com sua mente, talvez desse certo. Penso em você amanhã.
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