quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Décima-4 Página: Mãe.

De tanto livro sobre psicologia, pedagogia e filosofia que minha mãe já leu, ela se tornou praticamente um auto-ajuda ambulante. Minha mãe é ótima com as palavras, sabe como acalmar qualquer um, pede para que a pessoa respire direito, conte até dez, tenha uma vida mais calma e etc etc. Qualquer um que topa com ela, sente-se otimamente bem em contar sobre seus problemas e pedir conselhos, e ela ouve pacientemente à cada um. Já fiquei muito surpresa por sua paciência que eu, infelizmente, não tenho tamanha. E me surpreendo cada vez mais quando a vejo ajudando os outros com conselhos que parecem ser infalíveis. 
Comecei à prestar atenção nesse "dom" de minha mãe, quando tinha nove anos. Eu fazia natação em uma academia próxima e enquanto eu estava na piscina com preguiça de continuar, ela estava conversando com a dona da lanchonete. Já era comum que ela não me olhasse nadando, eu não me importava. Eu saía do chuveiro e lá estava a dona da lanchonete falando com minha mãe. Uma cearense tagarela. Eu comia meu lanche, e lá estava a mulher falando com minha mãe que apenas ouvia e quando no final, tudo já estava dito - ou aparentemente tudo - minha mãe lançava seu conselho que era ouvido e agarrado com toda a atenção do mundo pela mulher. Aquilo me entediava no começo e depois passou a me dar curiosidade (e depois à me entendiar novamente). Ela tinha tanto tato com aquilo, tanta facilidade em entender o problema do outro e lhe dar a resposta certa que eu não entendia como. Na volta para casa, eu me sentava no banco da frente do carro e ela dirigia enquanto contava um pouco do que a mulher lhe havia falado mesmo se eu não perguntasse. E durante toda a minha vida foi assim. Eu, normalmente, não preciso falar muito que ela já percebe e faz questão de dar suas dicas e falar do Doutor Augusto Cury, seu autor preferido no mundo da psicologia. Mas o pior é que não consigo falar realmente o que quero e apenas ouço seus conselhos concordando, os mesmos conselhos de sempre, com uma pitada de "paciência é tudo". E para acrescentar na minha vida quase budista, agora ela é natural ou "natureba", suco verde, gengibre, arroz integral, carne de soja e chás, meu Deus, como odeio chá. Mas a mulher que tanto sabe dar conselhos e manter a calma, desabafa comigo, sua filha, com talvez medo de atrapalhar os outros com seus problemas, sendo que os outros não têm essa preocupação em atrapalhá-la ou não! Ela sempre contou tudo para mim, praticamente tudo, todos os seus problemas, até para reclamar de meu pai e talvez seja por isso que somos tão próximas, normalmente em suas reclamações, apenas me calo e balanço a cabeça concordando.

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